Mau uso de expressões

É muito comum em conversas entre falantes de qualquer idioma o uso de expressões para enfatizar a ideia que o falante deseja passar. O curioso é que a grande maioria dessas expressões são simplesmente repetidas, sem que o falante saiba o real sentido da mesma, ou sua origem. Isso acaba criando situações interessantes. Nesse artigo abordarei algumas delas.

Quantas vezes você não ouviu a frase “a situação está periquitante“? Qual sua origem?

Embora saibamos que o falante quer dar a ideia de que a situação está muito ruim, perigosa, ou algo parecido, se pararmos para pensar, não conseguiremos entender o porquê da associação com a ave: o que um periquito teria a ver com uma situação complicada? Na verdade essa relação não existe, pois a expressão citada acima foi usada erradamente. O correto é “a situação está periclitante“, e a origem desta palavra é latina, periculum, que significa perigo. Dela também se deriva a expressão “alta periculosidade“.

Na explicação acima eu destaquei sutilmente a segunda expressão a ser mencionada neste post, sublinhando-a. Esta não traz problema na fala, mas sim na escrita. Afinal, por que a maioria dos falantes de Língua Portuguesa escreve “ter haver” ou “nada haver“? E de onde surgiu isso?

Na verdade, a correta seria “nada que ver” ou “ter que ver“. Esta seria a expressão original de Língua Portuguesa. Mas acabamos optando pela versão de origem francesa: “a ver“. Mas, seja “que ver” ou “a ver”, a ideia passada é a de parecer. Se eu tenho a ver com meu irmão, eu me pareço com ele, e se uma coisa não tem a ver com a outra, as duas coisas são diferentes. Mas sempre com a preposição A + o verbo VER, e nunca HAVER.

O curioso é que na origem da Língua Portuguesa também existe a expressão ter a haver, mas que não tem nada a ver com a explicada aqui. Ter a haver significa ter a receber.

Outra expressão que é largamente utilizada, e motivo de muita discussão, é literalmente. Literalmente significa no sentido literal, ou seja, ao pé da letra. Logo, só deve ser usada quando o falante não estiver se utilizando de uma metáfora.

Um exemplo de uso errado desta expressão foi ouvido por mim durante uma partida de futebol no fim de 2009. Em certo momento, o narrador disse “[fulano] acabou com o jogo, literalmente.” fulano era o craque do time que saiu vitorioso. O problema desta observação é que, ao pé da letra, só quem pode terminar o jogo é o árbitro. O craque até pode ter feito de tudo no jogo, ter feito gol, ter roubado bolas, ter dado passes, ter acabado com o jogo, mas nunca literalmente. 😉

Mais uma vez sublinhei, na explicação anterior, o assunto da próxima explicação. Pense no que você no final de semana. Agora me diga o que está errado com a expressão final de semana.

Digamos que este não chegue a ser um erro, mas uma inadequação, que acabou caindo no uso popular. Inadequação porque final é um adjetivo (radical fim + sufixo formador de adjetivo +al). O mesmo processo de formação é observado nas palavras natural (da natureza), essencial (de essência), campal (de campo) e inicial (de início).

O curioso, neste caso, é que falamos “final de semana“, mas não “inicial da semana“. Preferimos “início da semana“. Veja outro exemplo desta construção, que nosso cérebro aceita tranquilamente, devido ao fato desta inadequação já ter caído no uso popular: “O filme teve um início triste, mas um final feliz.” Não há explicação para usarmos um e não o outro. É apenas o costume. Agora, não confunda com o uso correto desta palavra, como no exemplo “essa é minha palavra final“, no qual final está adjetivando (qualificando) o substantivo palavra. Logo, també estão certos “minuto final“, “gesto final“, “volta final“, etc.

A última expressão a ser discutida neste post é a tal da certeza absoluta. Na verdade, a própria certeza absoluta já é uma redundância, já que, se você tem certeza, é porque está certo de algo. Mas podemos aceitá-la por efeito de ênfase. O problema é que já ouvi várias vezes a frase: “eu tenho quase certeza absoluta“. Aí, complica.

Agora, a confusão que surge aqui é que a expressão “ter quase certeza” não está errada, pois significa estar quase certo de algo. Por exemplo: “Eu tenho quase certeza que fechei a porta, mas voltarei lá para checar” é uma situação perfeitamente possível. O que não existe é a combinação de quase com absoluta., já que vimos acima que absoluta é um instrumento de ênfase na certeza e quase indica pequena incerteza. Resumindo: “quase certeza” existe, “certeza absoluta” existe, mas “quase certeza absoluta”, não. Esteja certo disso! 😉

Lembra mais alguma? Mande para mim, e eu postaria mais à frente.

Mais uma vez espero ter ajudado (o que é diferente de ter “espero ter ajudado mais uma vez“, mas esta eu falo em outro post. 🙂



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